Santa Teresa de Ávila, para explicar o que era a a oração e a meditação, escreveu uma vez assim: “É tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com Aquele que sabemos que nos ama”. A oração é “tratar de amizade”, quer dizer, é uma acção de amigos, um comportamento da amizade. Quando a Fé é uma história de amizade com Jesus, a oração é uma consequência dessa amizade. E a meditação é “tratar da amizade”, quer dizer, criar ritmos interiores e exteriores para entrarmos em contacto mais consciente e profundo com a Palavra e o Espírito de Deus.

 

“…com Aquele que sabemos que nos ama”: é para aqui que a Fé sempre está chamada a crescer, para esta experiência íntima e agradecida de sermos amados e perdoados infinitamente acima de qualquer coisa! Não se pode fazer de Deus a questão primeira da vida, se ainda tivermos dúvidas sobre o Amor de Deus por nós e por toda a Criação. Fazer de Deus a questão primeira da vida, eis a meta da vida espiritual. 

 

A oração tem uma palavra decisiva a dizer sobre este assunto, porque ninguém pode dizer que é a questão primeira da sua vida alguém a quem não dedica tempo nem atenção. Quanto mais adulta for a Fé de um cristão, mais ele toma Deus a sério e cresce na seriedade e espontaneidade da oração. 

 

Uma Fé madura e uma vida espiritual saudável faz da oração um diálogo com Deus Pai ao jeito de um filho que fala com o seu Pai, um Pai sempre bom e calmo, um Pai com entranhas de Mãe. Com a mesma simplicidade familiar, a sua oração acontece como um diálogo autêntico com Jesus, com o jeito de um irmão que fala com o seu irmão mais velho, que é próximo, sábio e compreensivo.

 

O Espírito Santo introduz-nos nesta familiaridade entre o Pai e o Filho, como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho. De igual maneira, o Espírito Santo inspira-nos esta familiaridade e torna-se o dialecto do coração em que toda a oração se torna verdadeira. É o Espírito Santo, diz o Apóstolo, que “dentro de nós clama ABBA, que quer dizer papá” (Gal 4, 6). ABBA e IMMA (papá e mamã) são as primeiras palavrinhas que uma criança hebreia aprende a dizer. É por aí que o Espírito de Deus começa, ao introduzir-nos na relação filial com o Pai de Jesus e Pai Nosso. Com toda a pedagogia, começa a ensinar-nos a balbuciar, agradecidos, o Amor que Deus tem por nós e o carinho com que Se nos dá a conhecer.

 

Fazer oração “em Nome de Jesus” é falar com Deus à maneira de Jesus e pelos mesmos motivos que Jesus! Quando nos ensinou a rezar rezando o Pai Nosso, ensinou-nos uma forma de oração em que não existe a palavra “eu”.

 

Porque não rezamos para que Deus cumpra a nossa vontade e preencha os nossos desejos, mas sim para que o nosso coração se expanda e a nossa mente se renda ao Projecto de Deus, para cumprirmos a Sua Vontade e vivermos de maneira a dar-Lhe gosto! Querer fazer de Deus um servo das nossas vontades ou um colaborador divino dos nossos projectos é uma idolatria. E querer separar a oração que fazemos da vida que vivemos, de maneira a não tirar consequências práticas do que rezamos, é uma deslealdade. A primeira carta de João chama-lhe mentira: “Se alguém diz que ama a Deus, mas odeia o seu irmão, esse é um mentiroso” (1 Jo 4, 20-21).

 

A oração não é um conjunto de palavras mágicas capazes de mudar o querer de Deus ou a Sua opinião. Mas isto não quer dizer que a oração não seja eficaz. Pelo contrário, podemos ter a certeza de que a oração é sempre eficaz, e a maior visibilidade disso é a mudança que opera em nós, profunda e duradoura. Porque à medida que oramos no Espírito Santo e em Nome de Jesus, o nosso coração começa a sintonizar com o querer de Deus. Este é o dom principal que nos é concedido através da oração: discernir o querer de Deus a nosso respeito, confiar-se e pôr em prática. 

 

Porque Deus só é Bom! Por isso, o Seu querer a nosso respeito coincide com o nosso máximo bem.

 

 

Calmeiro Matias & Rui Santiago