Infelizmente são poucos os cristãos que fazem da oração um encontro dialogado com Deus, como um filho conversa com um Pai bom e próximo. Há muitos cristãos a quem não lhes parece possível este tipo de relação com Deus, e há muito outros que não vêem nela importância de maior.

 

O território da oração é um dos mais habitados pela confusão dos medos e das nossas projecções acerca de Deus. Transmitiram-nos, vezes demais, a imagem de um Deus tão ritualista e tão mesquinho, que a oração ficou-se apenas por um formalismo que cumpre as devoções nos dias e horas certas, dizendo as palavras sempre iguais e os gestos sempre repetidos de acordo com o ritual em causa. Outras vezes, temos a imagem de um Deus tão complicado, que dirigir-se a “alguém” assim se torna uma fonte de angústia e perturbação interior, e parece-nos muito difícil rezar com outras formas que não as decoradas.

 

No fundo, isto significa que não conseguimos levar Deus tão a sério como assumimos na nossa vida os nossos amigos e as pessoas de quem gostamos. Significa que Deus, no nosso “mapa existencial”, não pertence ao território das nossas amizades mas ao das divindades.

 

Se as pessoas que amamos estão ao nosso lado, podemos falar com elas até quando estamos ocupados! Da mesma maneira, quando existe em nós a experiência profunda da presença de Deus, aprendemos a conversar com Ele com toda a naturalidade. Quando a nossa Fé amadurece, Jesus ReSuscitado deixa de ser  simplesmente um “dogma de Fé” e torna-se verdadeiramente um Companheiro de Alegria e Tribulação, Vivo e Activo no meio de nós, cumprindo o que ele mesmo prometeu: “Eu estarei convosco até que os tempos se finalizem!” (Mt 28, 20)

 

Apesar das nossas dificuldades - no que toca à oração ficámos quase sempre na infância da Fé - , a oração é fundamental para alimentar a vida cristã. A oração é a respiração da vida espiritual. Não é possível crescer espiritualmente sem sermos introduzidos num dinamismo como o da respiração, no seu ritmo de inspiração-expiração. Por outras palavras: acolhimento e partilha.

 

Seria totalmente errado pensar que a oração faz com que Deus nos substitua. Deus nunca nos substitui. Está connosco sempre, mas não está nunca em nosso lugar. Quando rezou o “Pai Nosso”, Jesus ensinou-nos a pedir o pão para cada dia (Mt 6, 11), mas isto não significa que nos tenha ensinado a cruzar os braços. O Apóstolo Paulo, por exemplo, diante de algumas coisas destas que aconteciam na comunidade de Tessalónica, diz-lhes aquela frase que acabou por ficar famosa: “quem não trabalhar também não coma!” (2 Tes 3, 10).

 

Mas, ao mesmo tempo, seria totalmente errado pensar que a oração não tem impacto real na nossa vida e é apenas um acessório religioso “para quem tem tempo para essas coisas”. É uma pena que a maior parte dos cristãos nunca consiga encontrar tempo para interromper um o ritmo do seu dia e conversar com Jesus, como quem “faz uma chamada”, como quem liga só para dizer olá ou para contar como está a correr o dia. Se nos treinássemos a conversar intimamente com Deus, a nossa Fé ia amadurecer, a nossa Esperança ia tornar-se mais robusta, e o nosso Amor ia ganhar qualidade. Porque toda a nossa vida ganha quando convivemos com as pessoas certas. Jesus está ao nosso alcance, é mais familiar e próximo do que estamos habituados a pensar, e Deus é mais íntimo a nós do que nós próprios!

 

“Quando eu for levantado da terra atrairei tudo a mim”, disse Jesus (Jo 12, 32). Este é o segredo: pormo-nos a jeito para sermos atraídos, deixarmo-nos levar, aproveitarmos as ocasiões para o conhecermos melhor. Porque é impossível conhecê-lo de verdade e não se apaixonar por ele! Essa é a nossa sorte…

 

 

Calmeiro Matias & Rui Santiago