As teorias abundam, e às vezes parece que a Espiritualidade é um produto que está à venda, entre tantas outras ofertas num mundo que nos escraviza através daquilo que nos “dá”. 

 

Para os cristãos, a Espiritualidade não é uma coisa, nem uma técnica, nem uma lição com um qualquer guru. Para os cristãos, a Espiritualidade é uma Pessoa. A Espiritualidade Cristã coincide com o Seguimento de Jesus, é um itinerário interior de atracção, adesão e conformação em vida partilhada. 

 

Porque acreditamos em Jesus como Presente de Deus, o dinamismo interior a que chamamos Espiritualidade torna-se um acolhimento agradecido. A fonte de toda a Espiritualidade de matriz bíblica é a Fé num Deus que Se revela. É Deus quem toma a iniciativa de relacionar-se connosco e dar-nos a conhecer quem é, do que gosta e o que sonha.

 

Mas Deus é discreto… Mostra-se e faz-se perceber à maneira de Espírito, quer dizer, do Amor mais leal: propõe-se, mas não se impõe. Insinua-se, inspira e orienta, sem nos manipular nem substituir. Deus está sempre connosco, mas nunca em nosso lugar.

 

A importância do amadurecimento espiritual é exercitarmos a nossa capacidade interior de perceber os sinais do Espírito de Deus e discernirmos a maneira como Deus se faz presente na nossa vida. Isto torna-se uma fonte de lucidez e de Esperança, é um bálsamo para a angústia. A verdade é que a maior parte das nossas angústias estão ligadas à nossa solidão, aquela solidão sofrida que nos deixa desorientados. Perceber que Deus é nosso Amigo e que está verdadeiramente perto de nós dá-nos uma força nova e viva. E perceber “isto” é experiência que se treina, exercita-se todos os dias, na fidelidade ao compromisso de parar um pouco, na meditação regular, no diálogo simples e familiar com Deus.

 

O Espírito Santo, no nosso íntimo, é o manancial da paz que faz jorrar em nós alegria e felicidade. É o contínuo Beijo Criador de Deus (Gen 2, 7) e a ternura que Deus tem por nós. Somos morada do Espírito! O Espírito de Deus vem a nós para ficar: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3, 16)

 

O evangelista Lucas põe na boca de Zacarias, o pai de João Baptista, estas palavras: “O Senhor guia os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 79). E “felizes os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9), está no centro das Bem Aventuranças. 

 

A paz emerge de modo especial no interior da pessoa que decide cuidar do seu íntimo, a fim de meditar a Palavra de Deus e orar em silêncio ao Deus que habita em nós como num templo. A Meditação é uma forma de enamoramento, de conhecer o outro, e a Oração é uma forma de diálogo, de dizer-se ao outro.

 

Era assim que Jesus procedia. Por vezes convidava também os discípulos a fazer a mesma coisa: “Vamos retirar-nos para um lugar deserto - disse Jesus aos que estavam com ele - e fiquemos ali por algum tempo” (Mc 6, 31).

 

Se conseguirmos tirar quinze ou vinte minutos por dia, com o objectivo de pararmos um bocado para meditarmos na Palavra e nos Sinais de Deus, vamos experimentar uma paz e uma sabedoria que antes não reconhecíamos em nós. Se nos organizarmos interiormente de maneira a sermos metódicos nessa interrupção quotidiana com a rotina e a pressa para conversarmos com Deus, a nossa vida ganha uma nova energia e capacidade de criar.

 

Precisamos de fazer a Higiene Diária da nossa mente e do nosso coração. Essa é uma das condições para vivermos felizes. Os frutos do Espírito - o amor, a alegria, a paz - precisam deste húmus da confiança que se exprime no silêncio. Porque as coisas mesmo importantes, é o silêncio que as revela.

 

 

 

Calmeiro Matias & Rui Santiago