Não há-de ser por acaso que o primeiro Dom Pascal é a Paz. Quando o Senhor ReSuscitado se apresentava aos seus discípulos, agitados pelo medo e angustiados, a saudação era aquele “Shalom” hebraico que é a plenitude de todos os dons, a abundância da presença e da ternura de Deus, a Felicidade.

 

A paz interior é um dom que emerge no nosso coração pela acção do Espírito Santo: “SHALOM, disse-lhes Jesus. Depois, sobrou neles e disse: Recebei o Espírito Santo…” (Jo 20, 21-22). Só o Espírito Santo - isto é: só o Amor de Deus que nos inspira e alenta - é capaz de nos levar à paz completa e duradoura. O Apóstolo Paulo também o confirma, quando escreve aos cristãos da Galácia desta maneira: “Os frutos do Espírito Santo são estes: amor, alegria, paz…” (Gal 5, 22). Que tríptico aqui está: amor, alegria, paz! Estes frutos do Espírito de Deus, na lista do apóstolo, ainda continuam (logo a seguir vem a “paciência” e a “amabilidade”, por exemplo), mas este tríptico de entrada já expõe os desejos mais íntimos do nosso coração.

 

O Espírito Santo dá frutos porque é a Seiva da Vida, como Jesus insinuou com aquela imagem da Vinha de uma casta nova e autêntica: “Eu sou a Cepa da Videira, a verdadeira, e vós sois os Ramos, e o meu Pai é o Agricultor que tudo cuida” (Jo 15, 1-7) O Espírito Santo é a Seiva desta Vida Partilhada de Jesus connosco. Por isso é que o segredo que Jesus nos dá sempre para que esta Vida Partilhada funcione e dê frutos é o seguinte: “permanecei em mim!”. Porque a Fé não é uma magia que anda pelos ares, mas uma vitalidade que se recebe por companhia e pertença, como os ramos recebem a seiva da cepa estando unidos a ela. 

 

Por outras palavras, o Espírito Santo age em nós de maneira frutífera quando o acolhemos e nos dispomos a colaborar com as suas acções e a cumprir as suas inspirações. Aquele que vem para nos deixar a paz, não vem para nos deixar em paz… O Amor é criativo e insistente, é inventivo e tem esperança no amado. Por isso, não é dado a desistências. É assim mesmo o Espírito Santo, porque é “o Amor de Deus derramado nos nossos corações” (Rom 5, 5).

 

Uma atitude fundamental para acolhermos a acção do Espírito Santo em nós é a Confiança: “Qual de vós,  por causa das suas tantas preocupações, consegue com isso prolongar um pedacinho que seja da duração da sua vida?” (Mt 6,25-27). E o Evangelho de Lucas acrescenta assim: “Tende cuidado para que as vossas vidas não fiquem pesadas devido às preocupações” (Lc.21,34)

 

Estamos sempre a tempo de reconhecer o ritmo acelerado do nosso mundo actual e a maneira como esse ritmo nos entra no corpo e na mente, como nos desarruma o coração e nos infantiliza as emoções. Nesta aceleração, a Sabedoria tem dificuldade em encontrar o seu espaço, e a Fé não encontra o contexto para ser fio condutor de espiritualidade e humanização. Até os frutos do Espírito é custoso fazer germinar e colher: como está banalizado o Amor; como anda superficial e momentânea a Alegria; e onde pára nestes tempos a nossa Paz, angustiados que andamos com tantas coisas ao mesmo tempo? (da Paciência, que é o fruto que vem a seguir na lista do Apóstolo, ainda bem que não nos toca por agora falar…)

 

 

 

BOA NOTÍCIA: 

podemos contrariar em nós esta tendência a viver uma crescente excitação da vida diária.

 

Podemos, devemos, queremos… às vezes falta apenas sermos fiéis e metódicos no exercício destas coisas. 

Podemos, devemos, queremos… às vezes falta apenas fazermos diariamente a paragem que nos compete.

 

Que método posso arranjar? Que momento do dia posso comprometer para acolher este Dom da Paz que está ao alcance, como os frutos maduros na árvore, silenciosos e sossegados, todos em dádiva, esperando ser colhidos. Como posso organizar-me para reservar 15 minutos, todos os dias, para cuidar da Higiene do Homem Interior? Se cuidamos tão zelosamente do Homem Exterior, porque não somos tão cuidadosos com o Homem Interior?

 

A Graça de Deus é de graça! Mas não é uma borla atirada ao chão. É um fruto maduro e delicioso à espera de ser colhido por quem pare, e veja, e agradeça colhendo. Outro tríptico tão desafiante e exigente: parar, ver e agradecer. A nossa tarefa é apenas essa: acolher a Graça, que é de graça, e por isso pede o nosso “SIM”. 

 

Acolhamos o dom da Força Pacífica de Deus e teremos a Paz necessária para vivermos de modo feliz: “O fruto do Espírito de Deus é a Paz”, repete o Apóstolo Paulo noutra carta (Rm 8,6). Nessa mesma carta aos cristãos de Roma, diz-lhes esta coisa tão bonita: “O Reino de Deus é Justiça, Paz e Alegria no Espírito Santo!” (Rom 14, 17) Quando Deus Reina, aJusta-nos à Sua Paz e à Sua Alegria.

 

E quando escreveu aos cristãos de Colossos, transmitiu-lhes este voto: “Que os vossos corações sejam o Reinado da Paz de Cristo, aquela Paz para a qual ele vos chamou como um Corpo só. E nunca deixeis de ser agradecidos.” (Col 3,15).

 

 

Calmeiro Matias & Rui Santiago